Como o rio...


Menina dançarina, poetiza de sonhos verdes. Cantora de multidões. Alegria das vozes, a mais bonita, a que ecoava nas abóbadas brancas da mesquita de cal. Sorriso tão grande nas histórias de embalar, as que não embalavam e faziam rir. Menina de terço e santo. Soldado de mágoas e feridas tapadas pela medalha. Mãe sem mimos, sem carícias... de calções engomados e sapatos engraxados. Mãe...
Mulher bonita, sedenta de saber. Mulher de silêncios profundos sem lágrimas nem lastimas. Mulher grande de colchas de renda e camisolas de lã. Mulher linda sem horas de sono sem cansaço sem solidão.
Avó querida de braços grandes, tão grandes donde nunca saí. Avó única de palavras certeiras e flechas amigas entradas no meu peito. Avó menina de pressa de ir e ver e dizer. Avó da praia do eucalipto e da terra. Avó tão alta da sua vida tão cheia, plena de dever cumprido, em paz. Avó de semblante sereno prisioneira da dor e da idade.
Avó:
Deixa-te ir, como ali nas azenhas, onde o rio corre, devagarinho. Deixa-te ir ao sabor da corrente, solta a amarra, liberta as margens. Olha avó, eu estou aqui, sempre, lembras-te que desci a encosta e me ajoelhei à beira da água, molhei as mão na água fria e vi as tuas, tão bonitas. Estou aqui avó, sempre, sigo para onde fores, assim, às vezes a maré sobe e a água do rio volta atrás, um bocado. Como nós, podemos voltar atrás, só por uns momentos, para ver que ficou ali tudo, como deixámos, de pé, de saudade, de dor.
Deixa-te ir, deixa-me levar-te, até ao rio, aquele das pedras redondas, das escarpas pretas, das histórias de cobras. Bebemos o teu chá e deixamo-nos ir. Assim!

3 comentários:

Milhita disse...

Tão bonito, minha irmã, mais bonito ainda este teu sentir.
Um abraço grande grande

Sandra disse...

Lindoooooo...........

Alda Couto disse...

Não existem smiles de lágrimas nos olhos, pelo menos eu não os sei fazer, é pena, poupar-me-iam palavras. Há momentos em que o silêncio se impõe :) Obrigada pelo texto :)